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Sobre o Ensino Religioso na escola pública.

Em geral, nós humanos e humanas tendemos a mistificar aquilo que não entendemos. Entregamos a Deus a responsabilidade e culpas por ações que, em geral, não conseguimos explicar.

Se puxarmos um pouco na memoria temos vários exemplos: Um grande furacão que atinge uma cidade “É obra de Deus, um castigo divino“ um grande terremoto: “Mistério de Deus, obra do criador. Ninguém entende os seus segredos” e por aí vai.

Essa ingenuidade nos persegue desde sempre. No inicio, quando não entendíamos a chuva, culpávamos o “Deus da Chuva”. Não há nada mais comum do que, em qualquer mitologia (tenta entender o conceito de mitologia antes de falar que eu estou chamando a sua religião de mitologia) do que atribuir a um Deus qualquer ação que, de maneira logica racional, não conseguimos explicar.

Desta forma, aparentemente, quanto mais ingênua for a sociedade, mais propícia a crenças mitológicas ela estará. Uma sociedade sem cultura elaborada, por exemplo, vai atribuir uma certa doença ao castigo divino. O raio de uma tempestade a fúria de Deus, O sol a alegria de um salvador. Etc.

Esse afastamento da cultura elaborada explica, em grande parte, uma associação a fé como salvação da sociedade, traz consigo a necessidade de esperar o salvador, a necessidade de sentar e orar, para que o salvador nos perdoe e, com toda a sua misericórdia, venha nós salvar.

Quando se pensa no ensino de religião na escola e se coloca isso como “Fundamental ao desenvolvimento do indivíduo”, é preciso, antes de mais nada, olhar para o contexto histórico onde isso acontece. A sociedade onde isso é posto.

Ontem, escutei o historiador Leandro Karnal, algo bem parecido com a seguinte frase:

“É um erro pensar que quanto mais Deus na sociedade, melhor essa sociedade será.”

Na verdade, vou um pouco além. Acredito que tais pessoas, aquelas que defendem o ensino religioso na escola, pensam: Quanto mais EU na sociedade, melhor a sociedade será.

O que vejo no bojo deste decreto, deste pensamento, é a necessidade de igualar todos a mim. A necessidade fundamental (fundamentalista?) de todos sermos iguais, de pensarmos iguais. Se eu tenho tal Deus e esse Deus me fez assim, você só será tão bom quanto eu, se seu Deus for igual ao meu.

Lembra da sociedade que não entende o diferente? A sociedade ingênua que acredita que a chuva a tristeza do Deus Chuva? Então, por não entender o contexto social do outro, a historia de vida deste outro. Ela, essa sociedade ingênua, associa o comportamento deste outro, que em geral é diferente do meu portanto, errado, há falta de um deus, ou a escolha de um Deus errado que certamente é diferente do meu. Sua música, sua cultura, seu credo, sua historia, deixa de existir como contexto social e passa, ele, o indivíduo da cultura diferente, a ser visto como um sujeito o qual Deus precisa salvar.

Sua fome, sua situação social, sua doença, sua incapacidade(?) de arrumar emprego, não é, e nunca será, culpa minha ou da minha sociedade, será justificada pela ausência do meu Deus, do meu salvador em sua vida. Tira-se, portanto, da sociedade as questões sociais que dela emergem passando tais questões há alguma divindade.

O que me assusta é o grau de afastamento em que tais pessoas estão da sua sociedade. O quanto elas não conseguem entender que há um abismo social entre uma classe e outra, e que esse abismo é SIM, reflexo de TODA absolutamente TODA uma sociedade. O quanto é necessário SIM repensar a educação pública, que é sim necessário lutar por uma escola pública de qualidade. Mas o olhar para a escola pública como local de fé, local onde se deva ensinar religião, é deixar de ver TODOS os problemas sociais daqueles que a frequentam, é colocar como salvação do indivíduo que ali está a crença em um Deus. É repetir o erro de 1300 de acreditar que a peste negra era um castigo divino, e nunca um problema social. É esquecer da vontade e necessidade do outro como sociedade, e projetar como salvação dele o “reino do meu senhor”.

É muito “Venha nós o vosso reino” para pouco “seja feita a sua vontade”.

 

Sobre saber amar.

Eu não sei amar pela metade. Definitivamente meio amor não cabe em mim. Olho, até com certa admiração para pessoas, casais que conseguem ter uma espécie de meio amor. Sabe? Aquele amor que é contido, que é cheio de lógica, que é rodeado de condições? Aquele amor cheio de razão, onde cada um tem seu espaço. Então esse amor não me serve.

Tenho uma espécie de amor louco, uma espécie de amor doente. Que traz junto com ele uma necessidade de estar junto, um querer ficar por perto. Uma necessidade constante de falar e ouvir um: Eu te amo.

Sou deste tipo, do tipo doente por amor e meu Deus, como isso me machuca. Como isso me incomoda, não saber onde você está, não saber como você está, não poder lhe falar: Eu estou pensando em você. Me machuca demais. Mas esse sou eu e a vida está me ensinando que estou errado.

Cada dia que passa vejo mais amores em primeira pessoa do singular, pessoas que se amam acima de tudo. Pessoas que não precisam do outro para ser feliz. Amores que precisam da sua privacidade, sabe? “Eu te amo, mas preciso da minha sexta feira a noite para curtir com a galera.” Esse tipo de amor que parece ser o que reina á minha volta. É para mim, meio amor, e definitivamente não serve para mim.

Por isso, resolvi lançar aqui um desafio. Um desafio por uma vida sem meio amor. Sabe? O desafio de amar de corpo inteiro. Propor a você, que ame pela metade, que em um dia, apenas um dia, ame por inteiro. Ame por completo. Pois é esse amor que tenho, e posso garantir, ele machuca muito, mas é lindo.

Quero, portanto, uma luta pelo amor em abundancia, amor aos quatro ventos. Quero um amor como verbo conjugado em todas as suas conjugações. Como estilo de vida. Um amor que quando me perguntem: O que você faz da vida? Eu responda: Eu amo.

Sobre a Ideologia Bancária.

Hoje navegando pela minha rede social, vi um vídeo postado pelo Carlos Eduardo Rodrigues Alves, talvez o maior responsável pela minha escolha de vida acadêmica e pessoa que eu sempre faço uma homenagem em todos os roteiros que escrevo, onde a família Simpsons zombam de Trump e ‘declaram voto’ em Hillary.

Sabe o que eu acho mais legal disso? Me parece, a distância, que nos EUA ter um posicionamento politico não é crime. Ao meu ver lá é meio que comum você ser democrata ou republicano, e mesmo se você é “um desenho”, pode ter uma opinião política. Sabe? Não há, ou melhor, temos uma menor hipocrisia velada.

No Brasil parece que temos a obrigação de ser nulos, isentos. Não podemos ter opinião política e parece que tê-la é crime, isso é ridículo. Nos EUA, há emissoras que expressam claramente sua posição política, há apresentadores de televisão que deixam claro sua visão e opinião política e, para mim, isso é ótimo.

Saber de onde a pessoa fala, lhe permite saber a ideologia que a cerca pois, desta forma, você sabe o lugar de onde ela (a emissora, o repórter, ator, desenho, etc) fala, sabe o que ela defende, sabe, por fim, a sua posição política.

Ai você vem no Brasil, tem muita revista que você VEJA por ai, que não faz reportagem, faz campanha política. E tem muita CARTA que você recebe que também é pura campanha política. E tais revistas se declaram como imparciais, isentas. Declaram, ainda, que seu único compromisso é com a verdade. Entende o risco?

Revistas, jornais, desenhos, carros, computadores, tudo que foi feito pelo homem TEM uma ideologia. Sempre vai ter. O homem coloca naquilo que faz um pedaço de si, o que o homem constrói leva consigo seu ideal. Isso é tão claro que um arqueólogo, observando a construção de uma cidade, é capaz de definir com certa precisão a estrutura política daquela cidade. Onde vivia cada classe social, como eram as divisões de tais classe, etc.

É preciso que as instituições sejam claras quanto o seu posicionamento político, até para que eu, como consumidor dela, possa me colocar a favor ou contra a ideologia dela. Isso é saudável, favorece o debate político. Saber de onde essa instituição fala me permite saber se estou com ela, ou se sou divergente à opinião dela.

Agora me diz. Em uma escola “SEM POSICIONAMENTO POLÍTICO” onde, na verdade tal posicionamento fatalmente é velado, pois se em uma cidade esquecida no tempo tem uma ideologia, imagina em uma aula, COMO vamos nos colocar contra ou a favor de algo?

Na verdade, me parece que o problema não está no partido na escola, mas sim em querer velar esse partido.

Para mim é claro que todo formador de opinião, seja ele professor, desenho, livro, revista, etc. precisa ser ético o suficiente para deixar claro o lugar de onde fala, e mais ético ainda em, ao falar do seu lugar, perceber que sua fala será SEMPRE, carregada pela sua ideologia e para alem deste perceber permitir SEMPRE que haja uma fala contrária a sua. Isso não é crime.

Quando um aluno tem uma opinião política diferente da minha, ele nunca estará errado, ele nunca poderá ser JULGADO como errado. E é justamente ai que vem o papel do professor, sua intenção como professor não é, e nunca será, converter esse aluno, mas sim enriquecer o debate com argumentos para que, ate mesmo, esse aluno fortaleça os seus argumentos. Fazendo, portanto o debate sair do achismo para o fundamentalismo, sair do Fla-Flu e virar um debate político tão sério quanto a idade do aluno permite.

Nenhum aluno é cabeça de bagre, é uma folha de papel em branco, onde o professor impõe uma ideologia. Esse pensamento é tão ridículo que chega a ser Bobo.

Alunos em QUALQUER FAIXA ETÁRIA, possuem posição política. O aluno não é um ser sem pensamento. No qual o professor deposita uma ideologia e depois ele devolve ela na rua, na manifestação, era só o que me faltava vamos progredir do conceito de Educação Bancária para o conceito de Ideologia Bancaria.

Tenha santa paciência né.

Sobre Moinhos de Vento

Dentre as minha leitura de Freire, há uma que sempre me remete ao titulo em questão. Medo e Ousadia. Nela o autor mostra a necessidade que o professor libertador tem de sonhar e pensar:

“o educador libertador está com os alunos, em vez de fazer coisas para os alunos. Nesse ato conjunto de conhecimento, temos a racionalidade e temos paixão. Isto é o que sou – um educador apaixonado -, porque não entendo como viver sem paixão.” (Medo e Ousadia, Pag 204)

Essa leitura sempre me levou a ver o professor como um caçador de moinhos de vento, deixe-me explicar melhor.

No livro Dom Quixote de la Mancha apresentam-se dois personagens: Dom Quixote, com sua visão de mundo um tanto quanto idealizada, e seu fiel companheiro Sancho Pança com a visão um pouco mais realista das coisas e, para mim, esses dois retratam bem o professor em sua prática.

Somos idealizadores, somos românticos, não o romântico que manda flores, ou o romântico que escreve um poema, somos o romântico em sua essência. Somos aquele que acredita. Somos aquele que, assim como Dom Quixote, os outros chamam de bobo e  como é gostoso ser bobo, há um texto da Clarice Lispector Das vantagens de ser bobo, onde, entre outras coisas maravilhosas sobre ser bobo, ela ressalta:

“Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.”

Sim, assim como Dom Quixote faz do moinho de vento o dragão, nós professores fazemos da nossa aula um show, um espetáculo. É comum escutar alunos que reclamam: O professor acha que eu só tenho essa ou aquela matéria. Engana-se o aluno que assim pensa, nós sabemos que você tem outras matérias e desafios na vida, mas somos bobos, para nós a nossa matéria sempre será a mais importante.

Mas não é apenas de sonho, que vive o professor, somos Sancho Pança também. Sonhamos sim, mas não sonhamos sozinhos e tão pouco esquecemos da nossa realidade e é justamente pela mudança que sonhamos. O nosso desejo de mudar, de transformar o mundo, é tão grande que sonhamos com o diferente. E esse é o primeiro passo de uma longa caminhada.

E, nessa caminhada, não há espaço para o esperto, o malandro. Não há espaço para atalhos. O bom professor definitivamente não é aquele que ensina as malandragens da vida, que ensina os atalhos para fazer mais rápido, ou melhor. O bom professor é aquele que caminha com o aluno, é aquele que faz com o aluno o seu caminho e apenas assim, nós conseguiremos mudar.

E no dia em que nos perguntarem se vale a pena ser professor, responderemos: Se for por amor às causas perdidas, se for por acreditar, se for por sonhar. Sim, sempre vale apena.

Sobre nossa casa.

Inconstantes, talvez essa seja a palavra que melhor nos define. Somos inconstantes. Mudamos, envelhecemos, crescemos, nos tornamos até “gente grande”, mas sempre, absolutamente sempre mudamos e são essas mudanças que fazem de nós, humanos e humanas que habitam o planeta terra, inconstantes. Raul Seixas já cantou que prefere ser uma metamorfose ambulante do que ter a mesma opinião formada sobre tudo, o próprio Fenando Pessoa já, com perdão pelo trocadilho, navegou pelo tema ao escrever que “Navegar é preciso; viver não é preciso”, pois, fatalmente, o navegar de Pessoa é a metáfora mais exata para a necessidade de mudança.

Somos, seremos e fomos inconstantes por toda a nossa existência. Mudar faz parte de nós e acredito que dentre todas as mudanças que nos permeiam a mais significativa é a mudança de casa. Não, não estou falando da casa onde você dorme, onde você come, onde você, com o perdão da palavra, caga. Estou falando da sua casa. O lugar no qual queremos e gostamos de estar. O lugar no qual acreditamos que está nossa felicidade. A nossa casa, aquele lugar que nos chamamos de Meu, aquela paz que nos chamamos de Minha. O nosso canto, o nosso lar.

As vezes, passamos a vida inteira procurando um lugar no mundo, procurando a nossa casa, nossa morada. Procurando o lugar no qual estamos felizes onde estamos bem. Quem nunca esteve na melhor balada, no melhor pico, na melhor festa, e a única coisa que conseguia pensar é: “Quero estar em casa.”? Ou quem nunca, dentro da sua própria casa, sentia uma vontade louca de, sem ser incoerente, ir para sua casa?

Besteira? Loucura? Insensatez?

Espere um pouco, pense bem, quantas vezes você desejou estar em outro lugar? Em outra época? E, as vezes, esse desejo é tão forte, mas tão forte que dizemos: Acho que nasci em época errada. Acho que nasci em um país errado. Nossa morada muda, nossa paz muda. Nossas vontades se transformam cotidianamente e, para mim, isso é fato. É premissa.

Logo, se temos a vontade intrínseca pela mudança e temos isso como condição sine qua non da nossa espécie, o que debater? Com o que nos preocupar já que como diz o ditado, “o que não tem remédio, remediado está”? Se não é cabível refletir sobre a mudança, nos resta refletir sobre o que nos leva a mudar e quais os sentimentos que nos fazem querer mudar. A pergunta que fica é: o que nos move? Se, como dizia Fernando Pessoa, navegar é preciso, o que usamos como remo?

Absolutamente, não quero causar uma reflexão sobre as mudanças, sobre o que mudou. Isso é fato dado, é premissa. O que busco, a reflexão proposta é: Por que nós mudamos? Por quem nós mudamos? Já que a mudança é, inerente a nossa existência, o que nos faz mudar? Acredito que a resposta para todas essas perguntas, é estritamente pessoal, cada um de nós tem a sua força; cada um, o seu remo. Apenas você conhece a sua morada e apenas você pode, ou não, sair dela, mas com uma coisa temos que concordar. Mudar é preciso, viver nem tanto.

Sobre o tempo

Deixamos marcas, muitas marcas e, em meu percurso acadêmico, algumas ficaram gravadas em mim, mas há, ao menos uma que repito quase que cotidianamente aos meus alunos. O tempo é uma questão de escolha.

Foi em uma segunda feira, muito possivelmente as 8h da matina, que escutei essa frase pela primeira vez, o Mestre Cortella, explicava algo sobre a historia da educação no brasil quando ele disse exatamente isso. Tempo é uma questão de escolha. O dia tem, para todos, 24 horas, cabe a você decidir como quer passar ele. Como quer gastar seu tempo e, talvez, isso faz do tempo aquilo que de mais precioso temos.

Ninguém pode falar “Desculpe é que ontem eu não tive tempo, por isso não falei com você”, ora todos temos 24h ninguém acorda com uma carta falando: “Hoje seu dia terá apenas 2h, se vira”. O mais justo seria falar “Desculpe, ontem eu escolhi fazer outras coisas e não escolhi falar com você”.

Por isso, sempre que alguém decide falar comigo eu escuto. Escuto por inteiro. Me dedico aquela pessoa ao meu máximo, pois o tempo dela, que é aquilo que ela tem de mais importante, agora é meu. Ela me deu, ela me escolheu.

Somos e fazemos cotidianamente escolhas e certamente, são essas escolhas que nós define. Se você escolhe, por exemplo, dançar na maior parte do seu tempo, você vai ser conhecido como aquela pessoa que dança, no entanto, se você escolher trabalhar na maior parte dele, você será conhecido como trabalhador. Mas se você escolher sonhar, você será um sonhador.

Sendo assim, quando uma pessoa me fala, fulano está me fazendo de bobo, automaticamente penso: Oras, se você é escolha do seu tempo? Como alguém pode fazer de você alguma coisa? Você é aquilo que você escolhe ser, quem sabe não foi você que escolheu ser bobo de alguém?

Portanto, sempre que alguém dedicar, um segundo, um minuto, uma hora, um dia, seja o tempo que for a você, entenda aquilo como uma forma da pessoa falar: Ei, você é minha escolha agora. E, se possível, escolha ela também, quem sabe assim você não será nem aquele que dança, nem aquele que trabalha, nem aquele que sonha, será aquele que esteve com alguém quando essa pessoa precisou.

O dia tem 24 horas, mas talvez essa pessoa só precise de um segundo seu.

Sobre o dia da mulher.

Todo ano eu escuto ao chegar o dia das mulheres, colocações como: “Dia da mulher é todo dia e não apenas um dia”, “Eu não comemoro o dia das mulheres essa data é extremamente comercial.”, “A mulher tem um dia, o homem tem todos os demais.“ e na minha cabeça não existe nada mais infantil que qualquer uma dessas afirmações.

Em primeiro lugar, não acho que o dia da mulher seja o dia de comemorar a mulher, um dia para a mulher, isso é ridículo. Para mim, o dia da mulher é o dia de pensar na mulher, não pensar em uma ou duas mulheres, mas pensar na mulher em geral. Todas elas e para isso, vou lhe dar alguns números:

Só no Brasil, de 1980 a 2010 cerca de 91.000 mulheres foram assassinadas, 43.500 só entre 2000 e 2010. Seis em cada dez brasileiro conhecem uma mulher que foi vitima de violência domestica, a cada 2 minutos CINCO mulheres são espancadas no brasil, uma em cada cinco mulheres já foram vitimas de algum tipo de violência por parte de homens no brasil sendo o parceiro (namorado ou marido) responsável por 80% dos casos.

E você ainda acha que o dia da mulher é o dia em que se manda flores para sua mãe? Ainda acha que não deve comemorar o dia da mulher pois ele é uma data comercial? Oras ninguém tem a obrigação de comemorar o dia da mulher, mas todos temos a obrigação de pensar na mulher nesse dia.

Segundo a pesquisa, 94% dos homens entrevistadas sabem da existência da lei Maria da Penha, mas apenas 13 realmente conhecem o seu conteúdo.

Portanto, se possível, neste dia da mulher, ao invés de comprar um boque de rosas, ao invés de mandar uma cesta de café, no lugar de falar que é um dia comercial. Use esse dia para ler a lei Maria da Penha, se informar sobre a situação da mulher no brasil e, se sobrar um tempinho, compre uma rosa, mas não para dar para sua mãe, namorada, esposa. Mas para dar a uma desconhecida. Sem nada em troca. Apenas de a rosa.

 

 

Sobre “La Petite Mort” no carnaval.

Creio que qualquer pessoa com o mínimo conhecimento da língua portuguesa consegue, ao ler a frase acima, descobrir a tradução da sua parte francesa, ao menos a tradução literária da frase. La petite mort.

A pequena morte.
Mesmo não sendo muito chegado ao carnaval, desejo a todos os carnavalescos de rua, de bairro, de avenida, não um carnaval do sexo, da luxuria, da festa da carne(?), mas um carnaval repleto de pequenas mortes. Um carnaval cheio de “Le petite mort”.

Com a chegada do carnaval, o que mais vejo nas redes sociais é uma exaltação quase que “carnateista”, se é que existe o termo, do sexo não do carnaval. Seria como se o carnaval se resumisse apenas a quatro, cinco ou seis dias de férias em uma ilha paradisíaca chamada Brasil, onde o sexo é elemento obrigatório. Os que namoram, no carnaval, devem terminar o namoro, já os que estão solteiros, continuem solteiros e venham para a festa. Venham transar o carnaval.Sinceramente, eu não gosto deste carnaval. Um carnaval sem “La petite mort”. Um carnaval frio.

“La petite mort” é exatamente assim que os franceses se referem àqueles poucos segundos, minutos, horas, que sucedem o ato sexual. A pequena morte. A expressão refere-se a incapacidade de realizar qualquer atividade, seja ela intelectual, seja braçal, seja qual for, após esse orgasmo, esse gozo. Você já esteve tão feliz, mas tão feliz que não conseguia fazer nada além de: Ficar feliz? Chorar? Rir? Chorar e rir? Estar em um momento no qual pensar, andar, correr é impossível? É exatamente esse o momento, é exatamente essa La petite mort que desejo a você nesse carnaval. Um carnaval intenso, um carnaval de entregas, um carnaval onde o gozo não seja objetivo, seja consequência.

Imagine um carnaval no qual o beber não seja obrigação, pegar geral não seja uma regra. Um carnaval sem máscaras. Um carnaval em que ”amor de carnaval” durasse mais que os quatro dias. Não que fosse um amor imortal, mas que, como diz o poeta “fosse chama”, consumisse. Um carnaval que queime, que esgote toda a energia, que faça com você o mesmo que chama faz com o amor do poeta. Queime por inteiro.

Se você vai para avenida, vá por inteiro. Vá queimar-se no samba. Vá esgotar-se pela sua escola, vá sorrir e chorar com o seu samba enredo. Se você vai para o bloco de rua, vá cheio de vida. Vá curtir o carnaval, vá passar a sua alegria a todos e todas. Vá queimar toda sua alegria. Se você vai para o baile, queime-se por completo. Dance, pule, cante, veja e seja visto. Se vai ficar com a família, queime-se dela e com ela, pule no sofá, na tv, na sala, faça a sua festa. Se vai namorar, namore com todo o seu fogo. Queime-se com o seu amor.

Não importa onde você esteja, deixe a chama do carnaval te queimar.

Um queimar que te mostre a vida, que te traga a vida. Que te deixe tão cheio de vida que por um instante, por apenas um instante, seu corpo se esvazie de toda ela, deixando a você apenas a sensação que queimou-se por completo, viveu-se por inteiro, e ai, você perceba que os franceses souberam descrever o gozar a vida plenamente, viver um amor em sua plenitude, em apenas três palavras.

La petite mort.

Bom carnaval.

 

Sobre ser Paulistano

Entre todos meus amores e entre todas minhas dores, o sentimento que eu tenho por São Paulo é algo que nunca vou conseguir explicar. As vezes, eu confundo com uma relação de amor e ódio. Mas acredito que vai muito além disso. Sou filho de São Paulo, e acredito que essa cidade fez de mim sua imagem e semelhança.

Ninguém escolhe onde nasce, na verdade algumas religiões afirmam que escolhemos o nosso lugar de nascimento mas, a grosso modo, somos jogados em algum lugar do mundo para cumprir o nosso destino. Até mesmo naquelas religiões que se acredita escolher o lugar de nascimento, esse escolher é chamado de Destino. Bom, esse foi o meu destino, nascer em Sampa. Assim como outras centenas de milhares de pessoas estava eu destinado a nascer nessa cidade gigante.

Sim uma cidade gigante, a terceira maior cidade do planeta e, ainda assim, mesmo dividindo essa cidade com mais de 20 milhões de habitantes, eu chamo essa cidade de minha. Essa é a minha cidade, essa é a minha casa e você já tentou explicar a sua casa? Tente. Perca um ou dez minutos para tentar explicar a casa onde vive e seus habitantes. As relações que acontecem nela, como funciona a cozinha, como funciona o controle remoto da T.V. ou, melhor ainda, tente explicar a bagunça organizada do seu quarto.

Sabe quando você arruma seu quarto, deixa tudo arrumadinho, ai entra alguém e fala: “Nossa você precisa arrumar o seu quarto!” e você pensa: “Mas eu acabei de arrumar!”. É justamente isso que você sente quando alguém de fora tenta entender São Paulo: “Mas vocês vivem sempre correndo assim?”, “Nossa você tem coragem de comer Pão de Queijo no posto de gasolina?”, “Mas tem loja aberta a essa hora?”.

E nós, a turma do meu, pensamos: Ah meu, essa é a minha cidade, esse é o meu quarto, para você ele está todo bagunçado, mas, na verdade, ele esta arrumado do meu jeito. Sei onde fica cada coisa em São Paulo, sei onde achar tudo.

Minha cidade meu. é o meu mundo. Talvez eu não nunca consiga explicá-la. São Paulo não foi feita para se explicar, São Paulo foi feita para se sentir e eu sinto São Paulo, mais que sinto, eu vivo São Paulo e parte minha acredita que só consiga conjugar este verbo, viver, aqui.

Lembra da historia do destino? Você não escolhe o lugar onde nasce, lembra? Mas você escolhe o lugar em que você vive. Você pode mudar o seu destino. E quantos destinados a nascer em outras cidades, estados e até mesmo países, escolhem tentar o destino aqui, na minha cidade. Quantos escolher viver em São Paulo, e hoje chamam essa cidade de minha cidade.

Pois, mesmo se você nasceu em outra cidade, quando você viver um tiquinho aqui, você vai descobrir como é gostoso ser paulistano em São Paulo. É impossível não se encantar por São Paulo, e é impossível não se sentir paulistano quando se tem aqui um canto para chamar de meu, uma cidade para chamar de sua, porque paulistano não fala meu por uma questão de sotaque (paulistano em geral não tem sotaque), paulistano fala meu, para se lembrar do seu canto, da sua cidade, do meu quarto.

Pois o Paulistano, mesmo aquele nascido em outro lugar, ama a minha cidade meu.

Sobre o passado

Acho que amadureço. Certa nostalgia tomou conta de mim…

Sempre vi pessoas com mais experiência vivendo momentos de nostalgia, e não era incomum eu achar aquilo um porre. Ora, pensava eu, quem vive recordando o passado esquece de viver o presente, pois o tempo não foi feito para recordar e sim para ser vivido.

Mas, ultimamente, uma saudade me fortalece. Sinto-a de forma diferente. Sempre escutei pessoas falando de uma “saudade que lhes consumia” e, com toda preciosidade que a arrogância pode me dar, acho que ai está o erro.

Não quero, e talvez não posso, ter uma saudade que me consuma, que me engula em momentos tristes que, na verdade, são frutos de lembranças que foram felizes (ou não).

O tempo foi sim feito para recordar. Se não qual seria a utilidade do ontem? Ele não existiria. Não haveria, ao menos, a palavra ontem. Só hoje e amanhã, e assim quando o hoje passasse, ele simplesmente sumia. Sem lembranças, sem dores, sem sabores.

Mas são os sabores que adoçam as nossas lembranças, são os gostos dos nossos desgostos que nos fazem ter apenas uma certeza, a que estamos vivos. Hoje aprendo que, estar vivo, é também lembrar do passado. É revivê-lo, senti-lo, ressenti-lo.

Aprendo agora a viver no presente lembranças do passado, mas não as choro ou as desejo, apenas as revivo. Revivo-as em minha mente, sinto suas dores, suas alegrias e seus sabores. Mas não as desejo para o agora, as quero ali, no meu ontem, onde eu possa visitá-las sempre, não para matar as saudades (saudades não morrem apenas adormecem) mas para vivê-las, ou melhor revivê-las, e desta forma provar, num outro tempo, o sabor que tinha, outrora, minha vida.